RETRATO FAVELA: UM DOCUMENTÁRIO CORAJOSO

 

Há poucos dias apresentei aos meus alunos do curso de Psicologia da Faculdade Ruy Barbosa, um documentário que havia recebido de “Marcão”, e  sobre o qual deveriam escrever comentário, valendo como conclusão do curso.

Conhecí Marcão (batizado Marco Manso Cerqueira e Silva), ainda muito jovem, no antigo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (hoje oficialmente denominada Faculdade de Medicina da Bahia). Sempre tive por ele uma grande afeição e alguma coisa me dizia que Marcão tinha uma alma especial. O tempo passou e nos reencontramos num destes acasos da vida. Precisáva de um bom motorista no CETAD e não hesitei em convidá-lo para inaugurar conosco um incipiente trabalho nas ruas de Salvador, com usuários de drogas injetáveis. Em pouco tempo Marcão foi a mão que plantou, em “vários lugares nunca d’antes aproximado”, se me permite Camões, o que se chamaria Programa de Redução de Danos do CETAD. Durante dez anos trabalhamos muito próximos até que a vida nos afastou (mas não é assim mesmo: a vida que aproxima não é a mesma que separa?). Hoje, Marcão é um dos Diretores da ABRAMD, que congrega profissionais em torno da atenção a usuários de substâncias psicoativas,  e foi o condutor na fundação da Associação Baiana de Redutores de Danos-ABAREDA.  Através desta associação, ele concebeu e deu vida ao documentário “Retrato Favela”. Escreví, para servir de parâmetro na correção dos trabalhos acadêmicos, minha própria percepção do documentário. Eis aqui, Marcão, o que penso de seu trabalho.

“Um homem negro de cabelos longos à moda rastafari, e por isso mesmo denominado “Rasta”, nos conduz por uma favela na região metropolitana de Salvador, marcada pela extrema pobreza e denunciando a tão mencionada desigualdade social; a favela faz divisão com regiões ricas e prósperas da cidade. De logo, torna-se evidente que o documentário colocará em evidencia o consumo de substâncias psicoativas por moradores desta favela, sem estabelecer qualquer vínculo de causalidade entre pobreza e este consumo. Crianças são vistas e moradores importantes, não usuários, são entrevistados.O alvo do documentário não é o sintoma – uso de drogas – mas o mundo em que vivem alguns consumidores, com suas dores e misérias , esperanças e sonhos. Não se aventura pelas causas, mas pelo modo como alguns consumidores, marcados pela pobreza e falta de oportunidades podem ser alcançados por uma prática inovadora, não incorporada, àquela época, à política de saúde do Brasil. Trata-se de reconhecer a possibilidade destes usuários  cuidarem de seu próprio uso, sem vitimização ou moralismo, colocando ao seu alcance  seringas e cachimbos que evitam a contaminação viral (AIDS-SIDA, Hepatites B e C), dentre outros agravos à saúde. Salienta o documentário, a necessidade deste aporte permanente, o que se torna possível pela formação de agentes de saúde usuários, de preferência moradores da região. Por outro lado, o reconhecimento honesto e franco da condição de “cidadão-usuário-de-drogas”, dá a essas pessoas a dimensão da esperança e da dignidade, inaugurando alguma estima por si mesmos até então desconhecida. Onde antes era só miséria, agora é miséria e algum respeito; onde antes era só morte e desordem, agora deixa circular a vida pela mão do  Redutor de Danos, portador de alguma  esperança.

Por outro lado, é possível tomar este documentário a partir dos elementos essenciais para a compreensão do consumo de SPA, lícitas ou ilícitas: o usuário e suas vicissitudes; as substâncias em suas dimensões químicas e enquanto objetos de mercado e as condições sócio-cultarais nas quais consumidor e substâncias se encontram e são marcados por valores da cultura. É interessante notar que neste documentário não são abordados os efeitos das substância nem seu valor de mercado, mas o encontro de pessoas com uma substância de extremo poder químico e desorganizador, o crack. Há no documentário referência à desordem que pessoas “pesadas”, usuárias  desta droga,  traziam para a comunidade. Aqui, não fica claro o lugar do tráfico, nem é este o propósito do trabalho. Contudo, na favela nem todos estão submetidos à ordem química; a favela é múltipla e plural. Evidentemente, os Redutores, quer de fora, quer da própria comunidade, não usuários, usuários ou ex-usuários, aportam “uma certa ordem”, conseqüência das informações e intervenções sobre o consumo a partir do respeito à liberdade de cada um,  sem imposições nem restrições.

Patrocinada pelo Ministério da Saúde, A ABAREDA, Associação Baiana de Redutores de Danos, “mostra sua cara”: sua sede é pobre e localizada na própria comunidade; suas portas estão sempre abertas. Ela se torna extensão dos barracos mas é, também, exemplo de que a pobreza pode explicar muito, mas não justifica tudo.

A esta altura, lembro o cancioneiro popular:

“…Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei

Não por mim nem por ninguém que junto comigo houvesse,

Que quizesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu

Por qualquer coisa de seu, querer mais longe que eu.

Mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo

E já que um dia montei, agora sou cavaleiro.

Laço firme, braço forte, de um reino que não tem rei!”

(Disparada; letra de Geraldo Vandré e música de Théo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues, Festival Record, 1966).

NOTA: Marco manso Cerqueira e Silva (marcomanso@ig.com.br)

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7 comentários sobre “RETRATO FAVELA: UM DOCUMENTÁRIO CORAJOSO

  1. Célia Baqueiro

    Belo!
    Simples assim.

  2. Fico curiosa, emocionada e feliz de ler sobre voce, sobre Marcao e sobre a historia da qual nenhum de nos escapou. Beijos

  3. Olá, sou profissional e gestora de SM e tenho lido muito sobre as experiências exitosas na BA sobre RD e políticas de atenção aos usuários de substâncias psicoativas. Atualmente também sou professora num curso de Psicologia e fiquei muito interessada neste vídeo. Vc pode me informar onde posso ter acesso ao mesmo?

    Att,
    Janiane.

    • Antonio Nery Filho

      Janiane,
      Obrigado pelo interesse. Veja o e-mail de Marco Manso Cerqueira, autor do vídeo, no final do post.
      Abraços

  4. oi Nery,
    Um interlocutor tão charmoso, contando uma experiencia tão bonita como do Marcão só podia dá men texto tão lindo.
    Um beijo em vc e no Marcão
    Christiane
    RD Rio de Janeiro

  5. Meu coração se enche de emoção e orgulho cada vez que alguém elogia e reconhece o trabalho, esforço e luta de Marcão(meu pai, srsr), e quando esse alguém é o Dr. Nery, aí nem se fala…
    Valeu Dr. Nery!
    Abração. 😀

    Deise Mara
    Salvador-Ba

  6. Duas figuras, dois amores, dois sonhos-ações de trabalho!!! Nery e Marcão: viva vocês!!! E toda trupe da RD da bahia com certeza!!
    Grande abraço de Recife,
    Rossana Rameh

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