Porque os humanos usam drogas – II

O que a gravidez de minha filha tem a ver com os humanos e o consumo de drogas?

 TUDO, na medida em que considero as circunstâncias envolvendo o nascimento de minha neta: a vida, a alegria, a renovação, a esperança, a transgeneracionalidade. Desta perspectiva, não haveria lugar para outra coisa em sua vida que não fosse amor. Se pudesse imaginá-la como uma Jabulani[1], ela seria cheia pelo melhor de cada um de nós; suas faltas e falhas seriam tão pequenas…, insignificantes quase, não fosse a importância das faltas na malha de nossa subjetividade. Tantas Marias, Paulas, Anas, Pedros e todos os nomes, terão nascido e nascerão nestas circunstâncias!.

Ocorre que, pelo final da gravidez de minha filha, sua mãe adoeceu e tivemos de cuidar de duas situações extremamente significativas para os humanos: de um lado a reinvenção da vida e do outro, os temores da doença a e ameaça de morte. Uma frase, contudo, resolveu a questão: “não posso morrer, tenho minha neta para cuidar…”. Aquela criança era a Vida de todos nós; não havia, naquele momento, lugar para morte.

 E o Pelourinho?

 Volto àquela gravidez, talvez a quarta daquela mulher, sem assistência, ocorrida naquele quarto dividido em duas pequenas metades por um velho lençol esburacado e sujo, suspenso por um fio… uns dormiam, outros ouviam os ruídos, todos os ruídos,  como me disse Gey Espinheira, “não há intimidade na miséria, tudo se expande, tudo é comum e coletivo”. Aquele filho seria mais um filho da tristeza, da falta de esperança; para ele não havia a expectativa da alegria; só a expectativa da sobrevivência. Aquele João-Antonio-José, nasceria sob o signo da falta de possibilidades. Sua plenitude estaria muito próximo da dor e da morte!

 E o que isto tem a ver com o consumo de drogas? Tudo!

 Tudo, se admitirmos que cada humano consumirá esta ou aquela droga, na medida de suas necessidades subjetivas e sociais. Não são as drogas que fazem os humanos – já foi dito – mas são os humanos que fazem as drogas, ou, se dissermos de outro modo, em função dos buracos/faltas que constituem a estrutura de nossas histórias. Alguns de nossos filhos terão pequenos espaços para as drogas em suas vidas; outros filhos nossos encontrarão mais facilmente nas drogas a possibilidade de suportar o horror da exclusão pelo nascimento. Entre uma história e outra, há todas as possibilidades – a vida é mobile. Nossos nascimentos não são garantias inelutáveis de destino, mas portam a semente do que poderemos ser.

 Neste sentido, o uso de drogas será, sempre, indiscutivelmente, uma questão humana.

 


[1] Nome dado à bola utilizada no Campeonato Mundial de Futebol, ocorrido em junho/julho de 2010, na África do Sul.

Porque os humanos usam drogas – I

Narciso (1594-1596), por Caravaggio

Recentemente, escrevi texto para apoiar a formação dos Coordenadores da atividade que denominei em 1995, Consultório de Rua, voltada para a aproximação e assistência aos meninos e meninas vivendo permanentemente nas ruas de Salvador. Decidi postar uma parte do escrito. Aqui vai a primeira metade.

[…] Se os humanos usam drogas (substâncias psicoativas legais e ilegais) porque são humanos, haveremos de considerar, no mundo de hoje, duas outras dimensões – a dimensão social e a própria substância. Valho-me, aqui, de um relato envolvendo meus mais próximos.

Há quase cinco anos minha filha telefonou-me para dizer que não estava sentindo-se bem. Vale dizer que tinha, àquela época, 27 anos, e vinha de sua primeira experiência de “morar sozinha”. Minha resposta imediata foi “você está grávida”, no que fui veementemente contestado. Elevado ao estatuto de doença, aquele mal-estar foi tratado por um colega otorrino, pois era fundamentalmente tontura e um não sei o quê indefinidos, como se fosse labirintite. Por minha insistência, exame laboratorial revelou, efetivamente, tratar-se, bel et bien, de gravidez. Creio que a doença poderia ser atribuída aos temores de minha filha quanto a este evento “autônomo”. Por que tomo, publicamente, fatos de minha vida pessoal? Para salientar que, durante alguns meses, transitamos todos na alegria da espera de minha primeira neta e primeira sobrinha. A mudança para um apartamento maior, as adaptações, a pintura cor de rosa, as compras, tudo era fortemente significado pela Vida. Coisa curiosa: diante desta gravidez fiquei mais sensível à percepção da pobreza de muitos pacientes do CETAD[1]. Ocorria-me demorar um pouco mais nos semáforos observando meninos e meninas molhados pela chuva ou queimados pelo sol da Bahia, exercitando malabarismos canhestros, montados uns sobre os outros, num circo triste e infame, até que algum impaciente reclamasse com sua buzina. Fiquei mais sensível aos excluídos e sem oportunidades, aos invisíveis que se expunham pelas ruas de Salvador.

Não raro, deparava-me com cenas vividas tempos atrás, no início de meu trabalho com usuários de drogas. Lembro-me, em particular, de ter entrado em um cubículo imundo, em uma rua do Pelourinho, onde viviam crianças e adolescentes em torno de uma mulher envelhecida precocemente pela miséria; estava grávida.

E o que isto tem a ver com o consumo de drogas? Tudo, absolutamente tudo !


[1] Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas – CETAD, Serviço Especializado da Faculdade de Medicina da Bahia – UFBA, sob minha Direção desde o início em julho de 1985.