Porque os humanos usam drogas – I

Narciso (1594-1596), por Caravaggio

Recentemente, escrevi texto para apoiar a formação dos Coordenadores da atividade que denominei em 1995, Consultório de Rua, voltada para a aproximação e assistência aos meninos e meninas vivendo permanentemente nas ruas de Salvador. Decidi postar uma parte do escrito. Aqui vai a primeira metade.

[…] Se os humanos usam drogas (substâncias psicoativas legais e ilegais) porque são humanos, haveremos de considerar, no mundo de hoje, duas outras dimensões – a dimensão social e a própria substância. Valho-me, aqui, de um relato envolvendo meus mais próximos.

Há quase cinco anos minha filha telefonou-me para dizer que não estava sentindo-se bem. Vale dizer que tinha, àquela época, 27 anos, e vinha de sua primeira experiência de “morar sozinha”. Minha resposta imediata foi “você está grávida”, no que fui veementemente contestado. Elevado ao estatuto de doença, aquele mal-estar foi tratado por um colega otorrino, pois era fundamentalmente tontura e um não sei o quê indefinidos, como se fosse labirintite. Por minha insistência, exame laboratorial revelou, efetivamente, tratar-se, bel et bien, de gravidez. Creio que a doença poderia ser atribuída aos temores de minha filha quanto a este evento “autônomo”. Por que tomo, publicamente, fatos de minha vida pessoal? Para salientar que, durante alguns meses, transitamos todos na alegria da espera de minha primeira neta e primeira sobrinha. A mudança para um apartamento maior, as adaptações, a pintura cor de rosa, as compras, tudo era fortemente significado pela Vida. Coisa curiosa: diante desta gravidez fiquei mais sensível à percepção da pobreza de muitos pacientes do CETAD[1]. Ocorria-me demorar um pouco mais nos semáforos observando meninos e meninas molhados pela chuva ou queimados pelo sol da Bahia, exercitando malabarismos canhestros, montados uns sobre os outros, num circo triste e infame, até que algum impaciente reclamasse com sua buzina. Fiquei mais sensível aos excluídos e sem oportunidades, aos invisíveis que se expunham pelas ruas de Salvador.

Não raro, deparava-me com cenas vividas tempos atrás, no início de meu trabalho com usuários de drogas. Lembro-me, em particular, de ter entrado em um cubículo imundo, em uma rua do Pelourinho, onde viviam crianças e adolescentes em torno de uma mulher envelhecida precocemente pela miséria; estava grávida.

E o que isto tem a ver com o consumo de drogas? Tudo, absolutamente tudo !


[1] Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas – CETAD, Serviço Especializado da Faculdade de Medicina da Bahia – UFBA, sob minha Direção desde o início em julho de 1985.

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2 comentários sobre “Porque os humanos usam drogas – I

  1. Acho que concordo com esta afirmação de que a situação tem tudo a ver com o consumo de drogas, mas particularmente com relação àquele que assiste ou cuida do usuário.
    E o que é necessário para acessar este usuário? Eis a grande questão, o grande enigma que cerca os interessados no assunto.
    Uma coisa é mais ou menos certa: existe um mal estar aí quer seja no usuário ou naqueles que os cercam. E o que fazer com este mal estar? Uma outra coisa também é mais ou menos certa: existe uma miséria aí, quer seja social ou subjetiva.
    E outra coisa é preciso estar mais ou menos certa: é necessário estar com uma boa dose de indignação, um pouco de militância e uma pitada daquele sentimento que experimentmos quando ouvimos uma boa melodia.
    Sabendo-se que toda a melodia chega a um fim, a uma conclusão ou se transforma em alguma outra coisa.

  2. camilavasconcelos

    “Ocorria-me demorar um pouco mais nos semáforos observando meninos e meninas molhados pela chuva ou queimados pelo sol da Bahia, exercitando malabarismos canhestros, montados uns sobre os outros, num circo triste e infame…”

    A associação que você faz entre o consumo de drogas e a infame realidade é extremamente pertinente. Além do mais, permita-me o infeliz trocadilho: a realidade alucina, ou alucinados somos nós que não enxergamos a realidade. E salve às buzinas apressadas, ao desprezo profundo, ao horror da miséria ignorada.

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