QUEM TEM MEDO DA LEGALIZAÇÃO?

Recentemente, fui entrevistado por duas jovens estudantes do ensino médio de um bom colégio de Salvador. Elas achavam difícil conseguir espaço em minha agenda e por isso recorreram a Patrícia Flach, minha ex-aluna na Faculdade Ruy Barbosa e agora colaboradora das mais atuantes e competentes no CETAD/UFBA. Patrícia é a mãe de uma das duas interessadíssimas estudantes. Entrevista marcada, recebi-as cordialmente tentando reduzir ao máximo a distância que vai de um homem que começa a envelhecer (tenho 66 anos) e duas mocinhas de 16 anos. Celulares postos sobre a mesa, seguiram uma lista de muitas perguntas cuidadosamente elaboradas, como pude constatar. Estavam muito sérias, quase cerimoniosas, dirigindo-se a mim por senhor. Respondi a todas as perguntas sem qualquer pressa; não escolhi palavras fáceis, nem frases “para jovens”. Respondi o que tinha de responder, dentro de minha experiência e do conhecimento que disponho. Não apresentei verdades concluídas, mas minha visão sobre adolescência, violência, tratamento e aspectos legais relacionados com as substâncias psicoativas. No final, feitos os agradecimentos de um lado e outro, pediram para me fotografar. Isto sempre me espanta, mas tento encarar numa boa.

Alguns dias depois da entrevista, Patrícia me informou que “as meninas” estavam irritadas em razão de corte, promovido por professora, a tudo que se referia a minha posição favorável à legalização da produção e comércio das substâncias psicoativas ilícitas. Patrícia estava muito zangada, diga-se de passagem, decidida a escrever uma carta “enquanto mãe”, endereçada à escola.

Deste modo, recebi de Patrícia o e-mail que transcrevo abaixo junto aos comentários que fiz em resposta. Compartilho com todos, esta pequena troca de correspondências, rica em significados e de possibilidades para dialogar, porque importante é poder conversar, discutir, ouvir e ser ouvido. Muitas são as verdades, como muitos são os caminhos.

Eis os textos:

Sou Patrícia, mãe de Paula von Flach. Venho acompanhando otrabalho desenvolvido por Paula e suas colegas com o tema “Meninos do Brasil”, considerando muito pertinente a proposta no sentido do desenvolvimento de uma postura mais crítica e baseada em informações não midiáticas. Nesse sentido, não posso deixar de manifestar minha decepção e, de certa forma, indignação com a forma como a entrevista do Dr. Nery vem sendo desrespeitosamente cortada. Sei que é um tema polêmico, assim como o aborto, eutanásia, extermínio de menores e tantos outros, mas  considero que exatamente por isso é necessário abrir espaços de discussão, com acesso a informações técnicas, que permita  aos alunos se posicionarem criticamente. Poderia citar uma série de revistas e jornais sérios, a exemplo do jornal francês Le Monde, Folha de São Paulo, dentre outros, além de pessoas públicas como três ex-presidentes – dentre eles Fernando Henrique Cardoso -, que discutem o tema da legalização das drogas. O profissional entrevistado, Dr. Antonio Nery Filho, é uma pessoa com notório saber sobre a temática, reconhecido internacionalmente, professor de ética da FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA – UFBA e de Bioética na FACULDADE RUY BARBOSA, ex-conselheiro do CREMEB, criador e coordenador do CETAD, Centro reconhecido internacionalmente e que atualmente tem suas práticas reconhecidas pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas que, inclusive, financiam a implementação dessas estratégias em todo o Brasil, com a coordenação desse Centro. O Estado da Bahia e o Município de Salvador também têm uma parceria com o CETAD, que propõe e implementa suas atuais políticas sobre drogas. Poderia preencher toda essa e várias outras  folhas com informações que ratificam a competência desse profissional sobre o tema sobre o qual foi entrevistado, mas é absolutamente desnecessário… podem acessar seu currículo Lattes.  Tudo isso para dizer que a censura das suas palavras é um desrespeito a ele e aos alunos dessa escola que não são cegos e surdos a uma questão que é tema principal da agenda dos atuais candidatos à presidência e que têm o direito de discutir o tema, concordar ou discordar.
Importante salientar que a defesa da legalização das drogas não é de forma alguma uma apologia ao seu uso, pelo contrário, é uma proposta de regulação pelo Estado de uma
questão  que hoje é regulada por traficantes.

Atenciosamente,
Patricia von Flach

 

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Patrícia,

Obrigado por suas considerações. Quando recebo jovens estudantes, peso muito o que digo e sou responsável pelo que digo. Assumo riscos, mas não transijo nem considero nossos filhos incapazes de identificar o certo e o errado quando lhes damos as informações necessárias. Aliás, este é um problema: nossos filhos e filhas vivem sem um norte claro, sem a possibilidade de reconhecer a verdade, porque, sobre muitas questões, quase sempre só lhes é dado conhecer a mentira. Sei que a legalização das drogas ilícitas é um tema que incomoda à sociedade brasileira, acostumada aos enganos e superficialidades constantemente apresentados pela grande mídia, atualmente voltada para um gozo incessante e oportunista em torno do crack. Não há como negar a relação entre tráfico e violência num comércio sem fronteiras nem limites. Creio que só a intervenção do Estado colocará um basta neste monstruoso ganho que devora vidas. Se o tráfico (ilegalidade) desaparecer, nos restarão as questões de saúde e as dificuldades próprias aos humanos. Certamente o consumo não desaparecerá, talvez nem diminua; num cenário pessimista, o consumo pode até aumentar; mesmo assim teremos um problema com o qual sabemos e podemos lidar. Retirar a possibilidade de nossos jovens poderem discutir estes aspectos, francamente, é uma droga!
Grande abraço,
Nery