QUE DEUS NOS AJUDE

Não raras vezes me opus ao que parecia ser o senso comum sobre as drogas e seus usos. Há muitos anos, declarei minha oposição ao modo como os usuários de maconha eram (des)tratados. Mais recentemente, discordei publicamente em evento internacional promovido pela Senad, em Brasília, da fórmula “crack e outras drogas”, onde um produto grave, é verdade, mas de insignificante alcance se considerado frente a outros agravos, ocupava o lugar  do álcool, de histórico reconhecimento como um dos mais sérios problema de saúde pública no mundo ocidental. Desde então recusei-me a participar de qualquer evento que colocasse o crack em evidência, por não querer contribuir para fortalecimento de uma falsa verdade, socialmente construída, e sustentada por uma mídia largamente desinformada ou defensora de interesses comerciais. Em São Paulo, no final de abril  deste ano, aceitei convite do Professor Elisaldo Carlini (CRR/Cebrid/Unifesp), para participar de Simpósio sobre Redução de Danos e crack. Por que a exceção? Porque precisava reafirmar minha velha posição, encontrar profissionais sérios e de larga experiência na atenção aos usuários de substâncias psicoativas e seus familiares; recusar publicamente, mais uma vez, a política míope, medíocre, que o Parlamento Brasileiro quer nos impor, longe de tudo que as ciências sociais, humanas e da saúde produziram ao longo das duas últimas décadas, e apoiar o Deputado Paulo Teixeira em sua tenaz resistência.  Em audiência pública na Câmara dos Deputados, promovida pela Comissão responsável pela proposta de alteração da atual Lei de Tóxicos (11.343/2006), pude avaliar a dimensão do retrocesso que nos aguardava. A proposta do Deputado Osmar Terra, é o cataclisma anteriormente anunciado. Contudo, não são os deputados evangélicos, ou os deputados proprietários de comunidades terapêutica que me inquietam mais. Cinicamente, penso que estão defendendo seus interesses. Inquieto-me, sobremodo, com os usuários e seus familiares pela pequena ou quase nula possibilidade de serem ouvidos; me inquieta a alma “o silêncio dos inocentes” que nunca tiveram de cuidar de um filho, de um marido, de um amigo-quase-irmão, envolvidos com uma ou mais drogas, legais ou não, seja como experimentador, usuário eventual ou dependente; perturba-me uma classe média acomodada em casas protegidas (ma non troppo) por câmeras, grades e vigilantes. Dói-me, profundamente, a “cegueira branca” de que falava Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira, que acomete, epidemicamente, a quase todos, qualquer que seja a cor, o credo ou a classe social. Por tudo isto, desejo que o Ministro da Justiça e o novo Secretário de Políticas Sobre Drogas, Defensor Público, tenham olhos para ver, ouvidos para ouvir e a sensibilidade indispensável para cuidar da coisa pública, no seu sentido original (rex publica), dando ao Manifesto assinado pelos Centros Regionais de Referências das Universidades Federais, a importância devida, porque representa, no mínimo, outra versão da sociedade brasileira. 

Por oportuno, anexo aqui o texto do psiquiátra Luís Fernando Tófoli, professor da  Unicamp, e publicado na Revista Carta Capital em 17 de abril próximo passado, para esclarecimento dos que ainda duvidam:

Em suas manifestações públicas em relação ao projeto de drogas que redigiu, o deputado Osmar Terra (PMDB-RS), médico e ex-secretário de Saúde de seu estado, tem sido profícuo ao citar dados. Em uma declaração ao jornal O Globo, ao criticar o viés “ideológico” daqueles que objetam contra seu projeto, não hesitou em dizer que “cada parágrafo” dele seria “baseado em evidências científicas”.

Dados científicos são frequentemente incompletos, sujeitos a contingências metodológicas e difíceis de interpretar. A própria construção do que é uma evidência científica e a decisão de nortear políticas a partir delas são também opções ideológicas, embora os médicos não se deem conta disso. No século XXI já parece ser bastante claro que não existe Ciência absolutamente neutra, e que é na análise de estudos que apontam posições e resultados contraditórios que poderemos nos aproximar da realidade. Esse é, por excelência, o caminho possível no campo das políticas públicas sobre drogas.

O PL 7663/2010 de Osmar Terra – transformado no substitutivo do deputado Givaldo Carimbão (PSB-AL) – está longe de ser uma peça legislativa baseada em dados científicos inquebrantáveis. Para começar, o projeto parte da concepção de que a dependência química é uma doença cerebral que leva a alterações permanentes causadas pelas drogas, uma doença para a qual não existe cura e para qual o único tratamento possível é a abstinência. Essa premissa é desafiada na literatura científica recente, e certamente não pode ser tomada como uma verdade para todos os casos. Como explicar, por exemplo, os vícios que não envolvem substância psicoativa, como o jogo patológico? Ainda que essa concepção da dependência fosse assumida como correta, caberia examinar se o projeto de lei, a fim de amenizar o terrível sofrimento social causado pelas drogas, está suficientemente assentado em evidências científicas. Vejamos aqui algumas que foram ignoradas no processo de elaboração do PL.

Em primeiro lugar, o projeto faz uma grande trapalhada ao emaranhar dependência química com uso de drogas. A literatura mostra claramente que o contingente de dependentes das drogas ilegais mais comuns no Brasil é algumas vezes menor do que o número total de usuários. Políticas e eventuais medidas para estes grupos devem ser distintas. Ao misturar os conceitos, o projeto dá a chance, por exemplo, de que um usuário leve de maconha seja submetido a uma versão contemporânea da internação forçada apresentada no filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky.

Outra confusão feita pelo PL está na proposta de uma classificação das drogas por seu potencial de gerar dependência. A ideia é baseada em uma classificação feita pelo Reino Unido e não é delineada no texto legislativo, ficando para ser decidida posteriormente. Atualmente há críticas à própria classificação britânica, e um famoso estudo publicado na respeitável revista científica Lancet colocou em cheque a própria noção de que seriam as drogas ilegais as mais daninhas para o indivíduo e a sociedade.

Não bastasse isso, o projeto ainda aumenta a pena para tráfico de drogas, sem distinguir usuários de traficantes de forma objetiva. Considerando o desproporcional aumento de apenados por tráfico no Brasil dos últimos anos – muitos deles com um perfil muito mais próximo de usuários do que de traficantes perigosos – tomar uma medida como essa sem determinar critérios objetivos de distinção é bastante temerário, ainda mais se considerarmos que o próprio endurecimento legislativo pode ser confrontado. Por exemplo, na Europa, o consumo por adolescentes é menor em países onde há menores restrições para o porte e uso pessoal de drogas. A resposta que o deputado Osmar Terra tem dado – que é o de que os “aviõezinhos” iriam carregar somente a quantidade permitida para porte e que “ninguém mais vai ser preso” – não é condizente com os dados do Observatório Europeu de Drogas e Dependência, que mostra que em países que se tornaram menos rigorosos com o uso e porte de drogas, as prisões por tráfico não diminuíram.

O autor do projeto já disse que as ações de consultório na rua – proposto como uma das alternativas às duas únicas formas de tratamento presentes no PL, a internação compulsória e o acolhimento voluntário em comunidades terapêuticas – não têm evidência de efetividade. Pode ser que o enfoque das provas científicas feito pelo deputado revele também um viés ideológico, já que o mais respeitável repositório de Medicina baseada em evidências, a Biblioteca Cochrane, indica que não há provas suficientes para apoiar o modelo das comunidades terapêuticas no tratamento da dependência química. Além disso, segundo afirma Gilberto Gerra, do Escritório das Nações Unidas para o Crime e Drogas, também não há evidências que justifiquem o uso de internações forçadas a não ser em situações críticas de risco de vida e quando outras tentativas não tiverem dado certo – o que, aliás, já determina a atual lei brasileira que dispõe sobre os tipos de internação psiquiátrica.

Há muitos outros pontos problemáticos – como o financiamento de entidades religiosas, o cadastro de usuários de drogas, as formas estranhas de regulação de um sistema de tratamento paralelo ao Sistema Único de Saúde, só para citar alguns. Num projeto tão questionado – rejeitado ou fortemente criticado por notas técnicas do Governo e por ONGs, por pareceres de entidades como a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto dos Advogados Brasileiros e o Conselho Federal de Psicologia, e até pela opinião de políticos de posições opostas na arena eleitoral como o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – a presença de evidências científicas que contradigam seus parágrafos deve ser mais um elemento para, no mínimo, refrear o regime urgente em que o projeto tramita e, no limite, sepultá-lo em definitivo na busca de respostas mais consensuais.

Mas, no Brasil, onde “política baseada em evidências” se confunde com “evidências baseadas em política” e a mídia – com honrosas exceções – ajuda mais a embaralhar e estigmatizar a questão do que estimular o debate qualificado, é bem possível que as evidências sejam soterradas pela urgência política vinculada ao atual projeto em tramitação. Aguardemos para ver o que os legisladores brasileiros têm a responder diante deste projeto que representa um conjunto de retrocessos míopes à pesquisa científica e às reais e sérias demandas de cuidados que a questão do uso problemático de substâncias impõe a este país”.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/03/070323_drogasclassificaebc.shtml

http://www.emcdda.europa.eu/stats12#display:/stats12/dlotab5a

http://cochrane.bvsalud.org/cochrane/show.php?db=reviews&mfn=3142&id=CD005338&lang=en&dblang=en&lib=BCP

http://www.unodc.org/southerncone/pt/frontpage/2013/04/08-treating-drug-dependence-from-coercion-to-cohesion.html