DROGA NÃO É A LEPRA DO SÉCULO XXI

 

Tenho acompanhado a peregrinação do Papa Francisco pelo mundo. Em julho de 2013, foi a vez do Brasil.  Confesso que tenho por este Papa sorridente, acessível e corajoso, uma admiração comparável à que senti por João Paulo II, quando deu à sua morte o sentido e a dignidade que o mundo parece ter perdido. Quero dizer que, nos dias atuais, a morte como aquilo que permite definir a vida, sem necessariamente compreendê-la,  foi destituída de sentido e valor, o que impôs, como consequência, a destituição  da vida como bem supremo, inegociável, clausula pétrea na Constituição Brasileira. Mata-se no Brasil mais do que se poderia imaginar: por um tênis, por um celular, por uma discussão no trânsito, nas escolas, sem motivo algum. Mata-se apenas por matar porque a vida carece de importância e a morte não é nada. Morre-se abandonado nas enfermarias,  nas  UTIs, longe do olhar dos próximos; morre-se sob a tortura de uma medicina voraz, produtora de dor  -distanásica –  fútil, pouco interessada nos cuidados paliativos que ajudam  as pessoas a viverem bem o tempo da aproximação da morte,  inevitável consequência do próprio viver. João Paulo II recusou uma morte sem dignidade e recolheu-se aos seus aposentos. Imagino que, pouco a pouco, destituiu-se da vida e, nela, morreu.  Na banalidade corriqueira das cidades brasileiras, a morte parece ter-se separado da vida, lembrando “o visconde partido ao meio”, de Ítalo Calvino, quando o bem e o mal, por arte de uma bala de canhão, dissolveu a unidade que o  humanizava: de um  lado só o bem; do outro só o mal, nada mais era humano.

Pois bem, admiro Francisco pela escolha que parece ter feito pelos mais frágeis, vulneráveis e vulnerados, escolha manifestada em vários de seus pronunciamentos; escolha significativa, revelada no destemor com que se aproxima das pessoas, às  centenas de mãos tocadas.

Contudo, decorrido quase um ano da comemorada  visita brasileira, minha admiração não permite aceitar a aproximação dos gestos atuais com os gestos antigos de outro Francisco que  abraçou os leprosos. É certo que Francisco de Assis não recuou diante da estigmatização, tanto quanto o Francisco, de agora, não recua diante dos excluídos usuários de drogas.  Contudo, exceto pela estigmatização e exclusão, os dependentes químicos que o Papa  abraçou e ouviu, numa longa cerimônia de depoimentos, por ocasião da inauguração de uma enfermaria especializada em uma instituição católica, nada tinham de leprosos. Não sou contra as enfermarias, qualquer que seja sua filiação, muito menos aquelas destinadas aos usuários de substâncias psicoativas em grave abstinência alcoólica, ou  psicóticos por intoxicação anfetamínica,  em crise aguda de ansiedade pela interrupção de medicamentos diazepínicos, ou pelo sofrimento revelado na compulsão do consumo  de crack (pasta básica de cocaína, sob forma de “pedra”), sem esquecer as associações (co-morbidades) do consumo de psicoativos e  doenças mentais e físicas (SIDA/AIDS, hepatites, cardiopatias, dentre muitas).  

Não concordei, àquela época, como agora, com a exposição a que foram submetidos os usuários de drogas em recuperação, por uma questão de principio: o anonimato é um dos pilares da clínica ensinada, desde os primórdios dos anos 70, pelo Prof. Claude Olievenstein (de Marmottan , Paris),  associado à gratuidade e à liberdade pela escolha de tratamento, isto é, a busca voluntária de ajuda,  ressalvadas as situações em que a morte é iminente,  morte para si ou  grave ameaça para os circunstantes. A autonomia do paciente é,  a meu juízo, raramente negociável. 

A  igreja escolheu “um tema sensível” e quase unanimidade nacional para valorizar sua atuação no campo do social. Para mim, entretanto, teria sido  muito mais corajoso e útil denunciar  a histórica desigualdade social que se perpetua no Brasil através da ausência de políticas públicas sérias,  voltadas para uma educação de boa qualidade para todos e melhor gestão na saúde, sem deixar de lado a corrupção de governantes e não governantes, presente em nossa história desde a Colônia. É verdade que o Papa Francisco ressaltou a solidariedade como traço significativo para o reconhecimento de nossa condição humana e, mais ainda, clamou por uma política ética e reafirmou sua convicção pela necessidade da garantia moral de nossos atos. Todos os atos, incluindo os da igreja, suponho. Em lugar de lamentar o fracasso das gerações anteriores, escolheu, claramente, os jovens, que denominou de “nosso futuro”, para depositar a responsabilidade pelas urgentes mudanças nos paradigmas sociais atuais: menor valor  para os bens materiais, transitórios, passageiros, e maior interesse e garantia pelos valores éticos e morais. Como não abraçar as propostas deste  Homem que poderia apenas dizer aquilo que os poderosos de passagem gostariam de ouvir? Como não reconhecer neste Francisco do século XXI, a firme disposição de se fazer ouvir do alto de sua simplicidade e sorriso cativantes?

Talvez o Papa Francisco não tenha podido impedir  os discursos de boa vontade que quase o adormeceram naquela inauguração de 2013. Talvez acredite mesmo que o “flagelo das drogas” seja uma causa, um mal inevitável como as doenças. Do fundo de minh’alma não creio nisto.  Não é possível que ele não saiba – tendo vivido tanto tempo na nossa irmã Argentina – que o consumo de psicoativos, modificadores de nossa percepção do mundo e de nós mesmos  foi, no começo da história dos humanos, necessário para suportar o peso do tempo, como disse poeticamente Baudelaire, tempo da finitude da vida, tempo da morte. Creio, firmemente, que Francisco, o Papa, não considera os usuários de drogas, em particular as ilícitas, como os doentes leprosos do século XXI. Ouso pensar que os vê como grave sintoma de uma sociedade do espetáculo, de Guy Debord, do transitório, da falta de memória, do ter  e do consumismo sem quartel, da mentira e do engano. Mas, creio que Francisco crê na esperança, como no Mito de Pandora. Quanto a mim, creio em Francisco enquanto esperança de transformação, como ainda creio no trabalho e na poesia.

 

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