Sobre o Ponto de Encontro no Santo Antonio Além do Carmo

Tomei conhecimento, recentemente, de discussão sobre minha proposta “PONTO DE ENCONTRO”, em parceria com as Voluntárias Sociais da Bahia, a ser instalado no bairro Santo Antonio Além do Carmo. Encaminhei para o site http://www.sejabeminformado.com.br, do jornalista Antonio Jorge Moura, a título de esclarecimento, o texto a seguir, acrescido aqui de pequenas modificações:

Caro Antonio Jorge Moura,

Meu nome é Antonio Nery Filho, tenho 67 anos de idade e destes, 41 dedicados à prática médica enquanto psiquiatra.

Neste sentido, em 1985, inaugurei, no âmbito da Faculdade de Mecina da Universidade Federal da Bahia o Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas -CETAD, inteiramente dedicado ao cuidado dos usuários de substâncias psicoativas legais e ilegais, tanto quanto dos seus familiares.

Durante sete anos este Centro funcionou no Bairro da Caixa d’ Água, sendo transferido, em 1992, para o Canela, no mesmo local onde funciona o Centro de Referência da Saúde do Trabalhador-CESAT/SESAB (Rua Araújo Pinho, região onde funcionava os Maristas e na qual estão a Faculdade de Odontologia, a Escola de Música da UFBA e grande quantidade de prédios residenciais do Canela).

Saliente-se que a parceria com a Secretaria Estadual da Saúde foi – e continua sendo – fundamental para a existência deste serviço especializado, que, durante muito tempo, foi o único espaço público voltado para consumidores de psicoativos, além da formação de recursos humanos especializados e pesquisas pertinentes.

Hoje, o CETAD/UFBA conta também com o indispensável apoio da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, da Secretaria de Saúde do Município de Salvador, do Serviço Social da Indústria e da Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas-SENAD/MJ, esta última cujo patrocínio deu lugar, recentemente, à reimplantação do “Consultório de Rua” (atendimento a usuários de drogas em seus locais de convivência) em Salvador e implantação em Camaçari e Lauro de Freitas. Para maiores conhecimentos de nossas atividades ao longo de 26 anos, sugiro acessar o site http://www.cetadobserva.ufba.br.

Quanto ao PONTO DE ENCONTRO, razão de inúmeros comentários em facebook (grupo AVANÇA SALVADOR), trago para seu conhecimento e divulgação o que se segue.

Há muitos anos, em uma de minhas atividades de cooperação com a França, conheci o programa de acolhimento a usuários de heroína, que consistia em dispositivo de baixa exigência, oferecendo um espaço para breve repouso, um banho, troca de roupa, um café e um largo espaço para ouvir quem não dispunha de mais nada. Guardei esta lembrança.

Ano passado, durante trabalho com os Menores Aprendizes, coordenado pelas Voluntárias Sociais da Bahia, e conhecendo o interesse de sua Presidente pelo Pelourinho, além das inúmeras ações dos governos Federal e Estadual para revitalização do Centro Histórico de Salvador, apresentei a proposta de criação de um local onde as crianças, adolescentes e adultos, excluídos e usuários de drogas desta importante região de nossa cidade, pudessem encontrar profissionais capacitados e disponíveis para acolhê-los e encaminhá-los, se assim o quisessem, para centros de tratamento existentes em Salvador (CETAD, CAPSad Pernambués, CAPSad Gey Espinheira/Pirajá, etc).
Esta proposta não pretendia – e não pretende – criar um centro onde os usuários de drogas permaneçam internados, mas oferecer-lhes “um lugar para onde ir” e sejam recebidos sem preconceitos; acolhê-los sem medos ou falsas caridades ou proposta de salvação. Fazer do encontro um momento privilegiado na construção de uma ponte entre o nada (ou a absoluta miséria, degradação e sofrimento) e alguma coisa.

Mais ainda, propusemos às Voluntárias Sociais incluir nesta proposta o que chamo de “Escola Aberta”, isto é, uma atividade inspirada em Paulo Freire, adaptada à realidade de nossos pacientes; associando as práticas redutoras de danos e oferecendo insumos que protejam a vida, tais como preservativos e orientações sobre doenças sexualmente transmissíveis e uso de drogas, particularmente o álcool, que é porta de entrada de todas as outras.

Sugerimos, finalmente, que uma parte do futuro PONTO DE ENCONTRO fosse destinado para hospedagem de visitantes, profissionais da saúde, estagiários interessados neste trabalho. Tudo isto interessou muito ao Tribunal de Justiça do Estado da Bahia que, de pronto, se associou à idéia como parceiro.

A escolha da casa, onde funcionou até algum tempo atrás a Escola Marques de Abrantes, foi circunstancial e providencial, porque o local é, tecnicamente, o melhor possível (localização geográfica, espaço, etc). Tudo isto foi dito pessoalmente por mim e outros membros da equipe do CETAD/UFBA a várias pessoas (a maioria delas proprietárias de pousadas e hotéis), em duas longas reuniões na Associação Amigos do Sto. Antonio e, por último, em reunião no Forte de Sto. Antonio a convite da Vereadora Olívia Santana.

Sempre fui claro e coerente com a proposta de trabalho. Alguns moradores da Rua Direita de Sto. Antonio, entretanto, divulgaram informações infundadas e contrárias ao bom senso e interesse pelos que vivem lá e em outras regiões do Centro Histórico, na mais absoluta miséria, tendo como última alternativa o uso de crack. Exemplo disto é a referência a recursos da ordem de milhões ou a suspeita lançada sobre o trabalho que desenvolvo com inúmeros profissionais no CETAD/UFBA.

O PONTO DE ENCONTRO será mantido pelo Governo e Tribunal de Contas do Estado, além do apoio político das Voluntárias Sociais e do apoio técnico da Prefeitura Municipal de Salvador. Certamente, o Governo Federal aportará seu apoio a esta atividade, que se somará ao Núcleo de Assistência à Família, sob a condução do Departamento de Pediatria da FMB/UFBA, e ao Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas Gregório de Matos (prestes a ser inaugurado) sob a responsabilidade da Extensão Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti FMB/UFBA, ambos no prédio da Antiga Faculdade de Medicina da Bahia.

Creio que estas informações esclarecem qualquer dúvida, salvo se houver a clara intenção de ofender e denegrir meu trabalho. Se assim for, me restará a justiça à qual recorrerei sem hesitar.

Atenciosamente,

Prof. Antonio Nery Filho

Amy Winehouse – um destino inelutável?

Recebi, como tantos outros e-mails, um sobre Amy Winehouse. A mensagem continha fotos de diversas circunstâncias de sua vida com a sugestão de mostrá-las a filhos, netos, sobrinhos e amigos, como exemplo contra as drogas. Decidi, num gesto quase impulsivo, responder ao emitente:

Meu caro,

Vejo com tristeza estas fotos e lamento que uma artista extraordinária tenha morrido tão jovem. Contudo, não concordo com as manchetes e com a sugestão de mostrá-las a filho e netos como exemplo contra as drogas.

Acho que podem ser mostradas como tema para reflexão sobre a vida e o que os humanos podem fazer de bom e de ruim. Se é verdade que as drogas produzem efeitos danosos, podem também salvar, a exemplo dos antibióticos.

Creio que atribuir a morte de Amy Winehouse às drogas, é como atribuir ao automóvel a responsabilidade pela má condução por motoristas. As drogas (legais e ilegais), como os veículos, são objetos passíveis de bons e maus usos.

Somos nós, humanos que somos – capazes de pensar, tomar decisões, fazer escolhas, ter sucesso ou fracassar -, os responsáveis pelo que nos ocorre. Pouco sei da vida desta artista, além do que nos mostrou (e mostra) uma media que se interessa apenas pelo dano, escândalo e sofrimento.

Não sei – porque ninguém disse – como foi para Amy lidar com o sucesso em dimensão mundial; como foi para ela separar os amigos honestos dos interesseiros; como foi ser cortejada pelo que oferecia e não pelo que gostaria ou precisava receber.

Acho que o sucesso mata com várias armas em tempos distintos. Fico pensando na dimensão da solidão de uma pessoa como Ami; e a solidão também mata humanos. Claro que posso dizer também, seguindo esta mesma sequência: as drogas matam. E matam mesmo. Só não posso é dar à cocaína, ao álcool, à maconha, atributos que não possuem.

As drogas, como qualquer objeto, necessitam de um ato humano para lhes dar sentido e valor. São externas aos humanos, enquanto que a alegria, o prazer, o sucesso, a solidão e tantos outros sentimentos nascem nos humanos, são internos, são de sua natureza.

Por último, penso no nome da artista – AMY – que soa ame, do verbo amar em português, e WINEHOUSE, vinho e casa. Será que estes dois significantes em inglês foram determinantes em sua vida ? É possível.

Certo é que uma jovem morreu quando deveria viver mais, muito mais, pela lógica humana que rege o tempo, porque a lógica dos deuses é outra.

Cordialmente,

Antonio Nery Filho


Quem cheira cocaína é responsável pelo tráfico. Quem compra carro é responsável pelos engarrafamentos. Quem deposita dinheiro em banco é responsável pela riqueza dos banqueiros. É assim?

A mídia brasileira  apresenta  as drogas ilícitas quase sempre através de números. Números relacionados com toneladas de maconha e cocaína apreendidas regularmente pela polícia. Mais recentemente a mídia passou a referir-se à quantidade de pedras de crack encontradas com este ou aquele traficante ou usuário-quase-traficante. Quando não é assim, mostra em reportagens pseudoinformativas, excluídos, miseráveis, moradores de rua, pessoas fracassadas na dura experiência de viver em sociedade, e suas relações com as drogas, como se isto fosse o banal, o comum, quando na verdade é a excessão ou, ainda,  como se o consumo de drogas ilícitas fosse um destino inelutável  estampado em abomináveis  outdoors e busdoors em Salvador, onde se via pés de mortos e se podia ler:  “Crack:  é cadeia ou caixão”, felizmente  retiradas   dos nossos olhos pela força do bom senso de muitos baianos. O sofrimento é  condição fundamental da existência  humana, o fracasso na vida em sociedade, não. Agora, mais recentemente,  a mídia passou a sugerir que a responsabilidade pelo tráfico é do consumidor: “sem consumidor o tráfico não se sustenta” ou, como sugeriu a Revista Isto É em dezembro de 2010: “Consumo:  a parte mais difícil da luta contra as drogas”, além de atribuir aos consumidores de cocaína e maconha em baladas  e o uso de entorpecentes nas praias e nos mais diversos lugares, a responsabilidade pela força econômica do tráfico.  É inacreditável como na maioria dos textos em nossos jornais e revista não se faz a necessária distinção entre os consumidores e os modos de consumo, nem se indica as diferentes possibilidades das substâncias, quer quanto  a capacidade de produzir dependência, quer quanto a capacidade de produzir morte por intoxicação aguda (overdose). Aliás,  já é tempo das pessoas saberem que nem toda droga é entorpecente. Entorpecente, é aquilo que entorpece, produz sono, seda. O melhor exemplo entre nós é a morfina; a cocaína é um estimulante, o oposto da morfina,  assim como o é a anfetamina, todas com grande possibilidade química de produzir morte por parada cárdio-respiratória ou  psicoses e hipertensão.  Lembrar que o crack e o oxi  são a mesma coisa: cocaína impura, básica, associada a produtos  danosos  à saúde física,  como carbonatos,  e supostamente portadores de resíduos de  gasolina ou querosene, sem qualquer comprovação.    A maconha, por sua vez,  é um sedativo com alguma capacidade de produzir transtornos psíquicos relacionados com a concentração de seu princípio ativo o THC (tetrahidrocanabinol), sem qualquer possibilidade de causar morte por intoxicação aguda. Contudo, há indícios de risco relacionado à condução de veículos sob efeito deste produto, tanto quanto alguma  perda da motivação, sobretudo entre usuários de longo curso. Entretanto, este efeito é uma possibilidade, nunca uma determinação e está relacionada ao patrimônio biológico e psíquico de cada um e às  vicissitudes do meio (sócio-cultural)  no qual usuário e substâncias se encontram,  devendo-se considerar, ainda, o estado geral de saúde,  estado nutricional,  e os muitos estados emocionais.  Destas circunstâncias e da ordem subjetiva construída a partir da história de cada um, resulta o imponderável-do-ser-humano,   significado pelo desejo.

Dizer apenas que alguém é “toxicômano” sem uma contextualização “bio-psico-social”,  não deveria ter qualquer valor porque não faz sentido, tanto quanto não faz sentido designar todas as substâncias como  entorpecentes. Creio que estes conhecimentos aliados a uma condição não  pré-conceituosa são fundamentais para a informação.

Talvez, se nossa mídia se (in)formasse melhor poderia ter a coragem de escrever à semelhança do Presidente Fernando Henrique Cardoso, referindo-se à maconha: “antes eu não tinha conhecimento, agora estou melhor informado e por isso reconheço o fracasso da guerra às drogas”,  e pedisse desculpas pelo ignorância que ajudou e ajuda a perpetuar .

UM NOVO TEMPO?

Faz algum tempo não posto um texto neste blog. Acho que meu silêncio tem a ver com “um tempo para reflexão”. Faz algum tempo escrevi que havia sido tomado por um grande desânimo diante do que me parecia ser um discurso alarmista e pouco sustentado cientificamente, sobre o crack. Saindo de minha natação semanal fui abordado por um segurança nestes termos “é doutor, o crack é um problema…”. Até chegar em casa pensei : de onde saiu esta idéia? O que esse senhor tem lido que eu desconheço, será que ouve noticiários que me são inacessíveis? Ou será que repete o que lhe é dito todo dia pelos telejornais e que acaba ganhando contornos de absoluta verdade? Não há um santo dia ou mesmo uma santa hora (como diria o Robin, parceiro do Batman), sem alguma notícia sobre droga, algum bandido preso depois de assaltar e matar alguém, movido por outra droga, um delegado afirmando que as drogas estão aumentando na comunidade e, finalmente alguma coisa sobre a vedete destronada – o crack, e a vedete mais recente , destronadora – o oxi, ambas a mesma coisa, apenas com roupas (solventes) diferentes. Como não silenciar diante disto tudo e refletir: será verdade que as drogas, produtos químicos inertes, insensíveis à dor, incapazes de amar, incapazes de rir ou de chorar, rígidas, duras em suas conformações minerais (ou vegetais), são as responsáveis por todo o mal, por todas as misérias do mundo, no dizer de Bourdieu? Fico perplexo diante da ausência na mídia de referência às pessoas, seres humanos, Antonios, Pedros, Ronaldos, Marias, Madalenas e todos os nomes que inventamos ou copiamos para designar cada um em sua singularidade coletiva. Mesmo quando a mídia ou a polícia se refere a “um elemento”, para dizer de alguém que fracassou ou nasceu fracassado, ou se criou no fracasso ou que não teve oportunidade de ser outra coisa, o “elemento” vem, imediatamente, associado a uma droga. “Foi por causa dela”, dirão, para explicar o delito, como se a droga tivesse um corpo que seduz e uma alma para penar nas profundezas do inferno depois do julgamento. A parte humana dos humanos tem sido sistematicamente substituída pela parte não humana das drogas. Contudo, nos últimos dias o impossível que se anunciava aconteceu: o Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso protagonizou um documentário que nos encheu de esperança – a guerra às drogas não serviu para os consumidores; a guerra às drogas serviu aos traficantes; os usuários não são bandidos; droga é uma questão de saúde e de informação mais do que de repressão cega e indiscriminada. O Presidente convoca a sociedade brasileira para uma mudança de paradigma. Droga não é coisa de bandido é coisa de humanos. Qual a novidade nisto? Nenhuma. Claude Olievenstein disse isto nos anos setenta em Paris. Luis Patrício em Portugal. Não é o mesmo quando mortais dizem coisas sobre mortais, salvo quando se trata de tragédias. A novidade agora consiste na coragem de um homem público, culto e inteligente, reconhecido no Brasil e pelo mundo, de assumir que não estava bem informado ou estava impossibilitado de retirar a venda dos olhos, disposto a assumir o custo social que a ignorância ou simplesmente a má fé vão cobrar-lhe. Acho que é chegado um tempo de esperança para usuários, familiares e profissionais que não temem as drogas nem se beneficiam com elas. Não se trata de promover as drogas mas de outro tempo, um tempo no qual a violência econômica e a violência física tenham sido deixadas para trás com a ilegalidade. Nós da saúde cuidaremos dos usuários e seus males, físicos e psíquicos, próprios dos humanos sem estigmatizações nem preconceitos. E isto não é pouco. Só humano, “demasiado humano”.

“El crack responde a una necesidad brutal, que precisa una droga brutal”

No final de 2010, estive em Buenos Aires na condição de Assessor da Secretaria de Saúde do Município de Salvador, para apresentar as experiências desenvolvidas nesta cidade, envolvendo diversos aspectos da prevenção e assistência aos usuários de substâncias psicoativas.  Em que pese ter sido referido na entrevista como represente do Governo Brasileiro, minha relação com o Poder Central resume-se a eventuais assessorias ou participações em Comissões Especias, quer do Ministério da Saúde, quer da Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas-SENAD. Abaixo, a entrevista em espanhol concedida ao jornalista Emilio Ruchansky e publicado no Site Argentino Página 12.

_________________________________________________________________________________________

“El crack responde a una necesidad brutal, que precisa una droga brutal”

El psiquiatra brasileño señala que no está contra el usuario, sino contra la droga, y se manifiesta a favor de la legalización de todas como forma de eliminar la violencia y el sufrimiento que generan el narcotráfico.

Por Emilio Ruchansky

–El paco es una sustancia relativamente nueva en la Argentina, recién el año pasado se supo que su composición química es en esencia alcaloide de cocaína. ¿Desde hace cuánto se consume en Brasil?

–Desde los años ochenta. Se le dice “crack” en todas partes, otra expresión no es reconocida. Es una palabra importada completamente de Estados Unidos, aunque no es la misma sustancia. Por el conocimiento que tengo, el crack fue una invención de los usuarios norteamericanos. En una crisis de falta de cocaína, ellos utilizaron el residuo de cocaína y asociaron carbonato de calcio, el que se usa para las tizas, lo que resulta un problema. El nombre es una onomatopeya: para ellos el sonido de una piedra que se rompe es: “Crack”.
–¿Qué medidas se tomaron desde lo sanitario cuando apareció?
–Por suerte, rápidamente se descubrió una cosa, que me parece importantísima para el crack. La vía de entrada es pulmonar y los pulmones son una inmensa vía de absorción. Es muy rápida. Y produce una gravísima “inundación” al fumar, como cuando los ríos desbordan e inundan una ciudad. Al fumar, ocurre una inundación brutal del sistema nervioso central, que se reparte en todo el organismo a través de la sangre, de un modo en que ningún otro medio de consumo consigue.
–¿Ni siquiera pinchándose cocaína?
–La misma cantidad inyectada precisaría una disolución sanguínea y un largo viaje hasta al cerebro para producir algún efecto. O sea, esa es una llegada más lenta que la vía pulmonar, que es inmediata y tiene una enorme, incomparable, intensidad. Esto es fundamental porque al fumar se produce una intoxicación de un centro cerebral responsable por el placer y, por otro lado, se produce metabolización inmediata de la cocaína. Justamente, el nivel de intensidad es tan alto que a la menor disminución de la intensidad va a producir una necesidad de reutilización porque la intoxicación es más alta. Además, cuando se usa una jeringa uno puede calcular mejor la dosis. Cuando usted fuma no hay un control tan preciso. Estas son las razones a considerar.
–¿Por qué?
–Pasa que el nivel de intensidad en el crack lleva oculto un fenómeno, que en Brasil resumimos así: “A una necesidad monstruosa, una respuesta monstruosa”. Déjeme explicarme mejor. Voy a decir una cosa que creo y defiendo. Yo creo que las personas tienen necesidades diferentes porque son biológicamente diferentes. Cada uno de nosotros tiene un patrimonio psíquico, que será determinado por el patrimonio biológico y las condiciones sociales, en las cuales los humanos conviven y se organizan. Esta una relación triangular permanente, que tiene como efecto la organización. No estoy hablando de inteligencia, ni de carácter, sino de organización. Considerando esto, cada uno de nosotros tendrá sus propias necesidades y sus propias posibilidades. No hay dos necesidades iguales, como no hay dos posibilidades iguales, porque no hay dos humanos iguales.
–Quiere decir que existe una fuerte determinación detrás de la elección.
–Así es. La “elección” de una droga será siempre el resultado de la interacción entre la posibilidad de un patrimonio biológico con una posibilidad psíquica en una condición social. La elección, muchas veces, llegaría a personas deprimidas, maníacas, excitadas, a organismos que van rápido, que soportan o que no soportan, a organismos que soportan una gran cantidad de cocaína en un psiquismo deprimido, en una situación desfavorable. Aquí se pueden hacer las combinaciones que usted quiera. Pero hay que destacar que en la combinación de los tres elementos son más importantes lo psíquico y lo social, puesto que lo biológico es estable, no cambia. Por ejemplo: alguien que pierde el trabajo, que ganaba bien, que tiene coche, casa. Esta persona tiene una constitución física buena, ninguna dolencia, pero una hipoteca que pagar por su casa y tres niños con una mujer que no trabaja. Ese hombre puede sufrir, puede beber o esnifar cocaína ocasionalmente y descubre que la cocaína resuelve su sufrimiento.
–Como si fuera un antidepresivo.
–Exacto. Pero no es un medicamento. No autentica la dolencia, no autentica la condición “patológica”. Si utiliza un antidepresivo reconoce que está enfermo, cuando usa la cocaína no.
–Pero la función parecería la misma.
–Es la misma, pero la condición y la representación no. Una es legal, la otra no. Una está en el ámbito médico, en la salud, la otra está en el ámbito de la intimidad. Y del placer. Este hombre busca una resolución del sufrimiento, no de la situación. De este modo, se comprende la historia que cada uno puede hacer de una droga. Tomemos los adolescentes. Los adolescentes sufren con la adolescencia, desafían al mundo, necesitan marcar su presencia en el mundo, con la transgresión dicen “estoy acá, soy diferente de mi mamá y de mi papá, yo soy otro”. Una de las transgresiones, en Brasil, no sé acá, es la utilización de la marihuana porque puede ser un sedativo, un desinhibidor y es una fuerte transgresión. La marihuana asocia a los adolescentes: pueden fumar juntos, comprar o cultivar juntos. Hay toda una cantidad de fenómenos asociados al consumo. Pero sobre todo los adolescentes saben que no morirán por fumar porro. Entonces, cumple bien todos los papeles que necesita el adolescente. Desgraciadamente, la policía, la familia, los médicos, los psicólogos no comprenden esta utilización y la criminalizan. La prohibición no es una ayuda a los adolescentes en su travesía hacia la vida adulta, es un vejamen. Esta utilización de la marihuana yo la considero absolutamente transitoria, en la mayoría de los casos, y funcional porque comprende, justamente, funciones para ellos.
–Es mejor que el alcohol para ellos.
–Absolutamente. Hace treinta años que trabajo en esto, tengo visto que la teoría de que la marihuana es la puerta de entrada para otras drogas no es verdad. Nunca fue. Es una de las peores mentiras que construyeron los humanos. No es la droga la que determina la persona, son los sujetos que determinan la droga. Atendí miles de personas que beben y no usan otra drogas. O que fuman y no usan otra droga. Lo que quiero decir, es que la elección de la droga responde a una necesidad humana. La cocaína no tiene necesidad, los humanos la tienen.
–Y a veces esta necesidad es monstruosa, como dice usted.
–Hay humanos que son periféricos sociales, yo los llamo en Bahía “los invisibles”. Son visibles pero invisibles socialmente. Personas sin futuro, sin la menor posibilidad en la geografía de las oportunidades. Son presos en condiciones monstruosas. En mi experiencia el crack “responde” a una necesidad brutal, que precisa una droga brutal. La marihuana no es para esta necesidad brutal. Es lo social lo que crea la posibilidad de una droga. Esto es fundamental para cualquier política y práctica médica. En este momento, vivimos algo crucial, creo fuertemente, tal vez estoy loco, que nuestro mayor problema son las rupturas de los pactos. No hay más representación de ley, padre y madre han perdido su posición. Padres e hijos están muy próximos, muy semejantes, muy parecidos. Los hijos no oyen de sus padres lo que pueden o no pueden, porque no pueden escoger. Los padres no les dicen qué se puede.
–¿Los mismos padres perdieron el respeto por la ley?
–Perdieron la referencia de ley, no se reconocen a ellos mismos como ley… no sé la policía de ustedes, pero la de Bahía, la de Brasil, no se distingue en nada de los bandidos, salvo por el uniforme. Los bandidos son más organizados que la policía. El narcotráfico en San Pablo está muy bien organizado, con una fuerte jerarquía de ley, y nosotros que deberíamos establecer las reglas sociales nos perdimos completamente. Pero la cuestión no es la droga sino los humanos, si lo que sustenta las relaciones, las leyes, fracasan, los humanos se desorganizan. En este sentido, la presencia de droga es un síntoma y no una causa, de la desorganización y ruptura de pactos. Por eso, yo defiendo que trabajemos en cuidar a los que sufren los efectos químicos y psíquicos de las drogas pero es más importante que miremos los pactos y acuerdos para restaurar las relaciones entre humanos. Desgraciadamente, trabajamos con las drogas y no con los humanos.
–El crack no desaparecería.
–No. Ninguna droga desaparecerá. Yo tengo una posición completamente anormal sobre el tráfico. Yo creo que el crack no es una buena droga comercial porque provoca una gran intoxicación que puede provocar muy fácilmente la muerte. La cocaína es soluble en agua, el crack, el que tiene carbonato de calcio, no es soluble y eso provoca problemas pulmonares respiratorias graves.
–¿El solo uso, aunque sea esporádico, hace un daño irreversible?
–Hay uso controlado de todas las drogas, pero hay algunas con menores riesgos, menores posibilidades químicas. Claro que hay personas con mejor competencia biológica, psíquica y social para usar el crack y que se pueden sanar. Algunos trabajos demuestran que el crack puede producir daños en el sistema nervioso central, produciendo parkinsonismo crónico, como puede pasar con los neurolépticos legales. Es una especie de temblequeo constante. El crack en Brasil no es pobre en cocaína, como podría ser el que se fuma en Argentina. Es el alcaloide, pero como no está refinado tiene otras cosas como el ácido sulfúrico, éter y otros residuos químicos que no están en la cocaína. Por eso, la pasta o el crack es más dañino que el clorhidrato puro. Los que utilizan crack no se alimentan, tienen otros padecimientos asociados, utilizan otras sustancias. No olvide que la mayoría está en condiciones sociosanitarias y afectivas muy precarias. Y que esas personas pueden morir más fácilmente de enfermedades accesorias, trastornos producidos por el consumo permanente de crack.
–Los usuarios no desconocen esto.
–Por eso creo que el crack, por su poder de producir daño, no es una buena droga de comercio, si se legaliza todo. ¿Por qué en un principio San Pablo tenía crack pero Río no? Porque los traficantes sabían que el crack desorganiza el comercio, los usuarios de crack son muy desorganizados, más trastornados. Los comerciantes de Río dijeron: “No queremos acá perturbaciones en nuestro comercio de cocaína”. En Salvador hay un comercio desorganizado con cocaína, el crack no tendrá larga vida como droga de masa, será siempre circunscripto para aquellos que necesitan una droga así. El crack no es el alcohol, que permite encuentros, comunicaciones, fiestas. El crack no se insertó en la pauta cultural, por lo tanto el crack no es, ojalá tenga razón, no será una droga sostenida comercialmente como algunos dicen en Brasil.
–¿Políticamente se hace algo para frenar el consumo?
–Sí. Todos, griegos y troyanos, están unidos contra el crack porque se tornó en el responsable de todos los sufrimientos. Lula hizo un discurso, hace dos meses, donde ¡responsabiliza al crack!: la sustancia deviene persona, se tornó una entidad responsable por todo lo malo en Brasil. José Serra, uno de los candidatos presidenciales, les dice a todos: “Voy a hacer hospitales en todo Brasil para tratar a los usuarios de crack”. Como si la solución fuera hospitalizar y tratar a todos los usuarios.
–Pero ustedes precisan más lugares.
–Es cierto, pero no como solución. No necesitamos un hospital en cada ciudad. Vamos a producir la muerte social de millones de personas que no deberían estar internadas porque no son enfermos. Porque la relación con la droga no produce siempre una enfermedad. Un usuario no es un toxicómano necesariamente: el uso puede ser experimental, recreativo.
–¿Cómo se debería tratar a los usuarios de paco?
–Necesitan de una intervención médica, psiquiátrica y también social. Son personas, repito, los usuarios de crack no son la clase media ni la clase rica. Están muy próximos a la periferia, a la miseria de la exclusión. Necesitan la oferta de una posibilidad social, que no sé si es posible. Tratarlos es simple, se los interna, cuida, hidrata y se les dan medicamentos para dormir, se conversa. En 10 o 15 días el cuerpo está sin problemas, pero el espíritu continúa igual, si no cambia la condición social en una o dos semanas tenemos la misma cosa. Ahora sólo les damos tratamiento casi exclusivamente para el cuerpo. Si tiene mil personas, mil camas. Cuerpos entran, cuerpos salen, entran. ¿Pero qué ofrecés socialmente?
–¿Qué tipo de estructuras sanitarias tienen para este tema?
–En Brasil, no el gobierno, sino la organización de los usuarios y los portadores de trastornos mentales se organizaron junto a sus familias, presionamos para conseguir la reforma psiquiátrica: la deshospitalización, algo que aquí también reclaman y consiguieron. Creamos dos instancias: las casas de pasaje protegidas y los centros de atención psicosociales: los “Caps”. Hay cap1 (ambulatorios de baja complejidad), cap2 (drogas), cap3 (drogas con 24 horas de trabajo, hospitalización corta y de 5 a 10 días como máximo para desintoxicación). Yo acabo de inaugurar un cap3 en un barrio periférico populoso en el noroeste de Salvador. Y es el primer centro en Brasil, no en Bahía, para niños que utilizan drogas y están en conflicto social, en las calles. El primero en un país con 200 millones de personas.
–¿Cómo se logró abrirlo?
–Pasamos a luchar políticamente con la universidad que tiene el poder técnico y ahora provocó al poder político. Es importante aclarar que no necesitamos hospitalizar, no es la regla, como quieren los psiquiatras. Es la última opción. Toda hospitalización debe ser corta. Yo trabajé en Francia con lo peor de los heroinómanos y se ponen de pie en diez días, físicamente, pero su alma no se pone de pie en diez días, tal vez no se ponga nunca.
–En Suiza y en España también se abrieron salas de consumo controlado de heroína. ¿Cree que eso podría funcionar para los paqueros?
–Sí, sí, sí. Yo defiendo esto, aunque es una herejía en mí país. Si los países trabajan en la lógica contra las drogas y no a favor de los usuarios, o sea contra los usuarios, entonces admitir estas salas es admitir que los usuarios tienen derecho a utilizar drogas y es un deber del Estado protegerlos en su utilización. Significa que yo puedo ayudar a alguien que se droga a no morir, a no enfermarse. Esta sala implica una comunicación entre una persona que se droga y un técnico en salud, es una condición propicia, buena para el intercambio. Yo creo que más aún para el crack, que es el desorden completo. ¿Por qué dejar a las personas abandonadas a su suerte o a su mala suerte? Si alguien escoge un riesgo como el crack, debe ser prioridad de atención y cuidado.
–¿Cuál es su próximo proyecto en Bahía?
–En seis meses, espero, vamos a tener en un centro de atención psicosocial para internar exclusivamente los usuarios de crack por cortos períodos, con una casa asociada, que yo llamo “casa de medio camino”. Es para que esas personas en 10 o 15 días puedan pasar a esta casa donde permanecerán el tiempo necesario para salir.
–No sería un sala de consumo protegido…
–No puedo contestarle eso hasta ver qué pasa. Tengo 66 años y estoy en posición de decir muchas cosas en Brasil sin ir preso. Pero primero quiero provocar la discusión en la universidad. En pocos días estoy abriendo en Pelourinho (un barrio antiguo y turístico de Salvador) una casa que llamo “punto de encuentro”, que sirve para acoger a personas de Pelourinho y otras regiones, darse una ducha, cambiar de ropa sucia por limpia, tomar un café. No pueden permanecer, no es un hospital ni un ambulatorio, sólo un punto de encuentro, necesario para seguir avanzando. Es el primer paso para reconocer que es mejor un hijo protegido en el uso, que muerto y desprotegido.
–Si el uso de drogas, según usted, no va a desaparecer, ¿cree que es mejor legalizarlas?
–Así es. Básicamente, porque los humanos nunca dejarán de ser humanos. Nunca, salvo que en mil años no seamos humanos y seamos mitad máquinas…
La legalización yo la defiendo para todos los productos sin excepción porque no estoy ni en contra ni a favor de las drogas, estoy a favor de los seres humanos. Las drogas forman parte de las cosas del mundo y los humanos también. Pero los humanos piensan y las drogas no. Creo que los humanos destituyeron a la muerte de su valor, la vida se define por la muerte y la muerte por la vida. La vida no es más valorada, en Brasil hay una crisis con esto. Se matan como si fuesen moscas. Los hombres se matan en mi ciudad: 20 por fin de semana. Es mucho. El tránsito mata 200 mil personas por año en Brasil y no hacemos nada… pero vendemos y vendemos más coches.
–¿Qué opina de la violencia ligada al tráfico?
–El tráfico no tiene ley sino fuerza, si entrás en mi campo te mato y si quiero ocupar tu territorio me matás o trabajás para mí. El más fuerte controla un territorio más grande. Si esta violencia no se resuelve sino por la fuerza, tengo la alternativa: introducir el tráfico y la marginalidad que lo rodea en la legalidad. “Bueno, ahora no precisás más matar a otro para ocupar territorio porque trabajaremos nosotros con la ley”, diría el Estado. Tu comercio, tu droga, los adolescentes no tendrán que exponerse a las violencia y a la muerte. Creo que están de un lado los humanos, su sufrimiento y las drogas; y por el otro, el comercio, la producción, el tráfico y la violencia. Si me libro de esto último… ¿qué resta? Las drogas con los humanos con sus sufrimientos y con los trastornos que las drogas les causan o no. En la salud sabés qué hacer con la enfermedad, pero no qué hacer con la violencia y el tráfico.
–¿Cuánto cambiaría el escenario con la legalización en su trabajo?
–Puedo trabajar mejor. Puedo reutilizar los recursos gastados en el tráfico y la violencia que no consigo controlar ni dominar. No resolverá todo el problema. Pero pienso: “Si legalizo y hay un aumento del consumo… trabajaremos con el aumento. Si legalizamos, disminuye el consumo, muy bien. Si legalizamos y nada ocurre, mejor”. En todo caso, estaré libre de una monstruosa violencia en un país que tiene un Estado oficial y uno no oficial. Tenga en cuenta que en la sociedad brasileña hay desigualdades sociales y económicas enormes. El 10 por ciento tiene el control del 40 por ciento de la riqueza. Si no soy capaz de cuidar de esto y si legalizo las drogas, clavo una lanza en el corazón del león, esta enormidad del narco: 500 billones de dólares en el mundo que corrompen a todos, que compran todo, Iglesias y políticos.

 

¿Por qué Antonio Nery Filho?

La amenaza mortal del paco

Por Emilio Ruchansky

Por momentos, más que un psiquiatra, Antonio Nery Filho parece un chamán. Es moreno, bajito, lleva su pelo canoso atado con una colita y habla con aire solemne sobre la aparición del tiempo, la muerte y las drogas como forma de aliviar el sufrimiento de estar atrapado en el presente. Estuvo en Buenos Aires para contar su experiencia en el tratamiento de usuarios de paco en Salvador, Brasil, durante la octava Conferencia Nacional sobre Políticas de Drogas, organizada anualmente por la asociación Intercambios en el anexo del Congreso. En su país, dice, hay una frase que resume la asociación entre el consumo de paco y la pobreza: “A una necesidad monstruosa, una respuesta monstruosa”.

A mediados de los ’70, Filho emigró a París a formarse en psiquiatría. Allí regresaría una década después para especializarse en la atención de usuarios problemáticos de drogas. Lo había impactado lo que había visto luego de ganar un concurso para dictar clases de psiquiatría legal en la facultad de su ciudad natal. “Rápidamente encontré usuarios de drogas internados en los hospitales universitarios para saber si eran traficantes o enfermos. Y todavía no se hablaba tanto del crack, o el ‘paco’ como lo llaman aquí”, recuerda.
En Francia fue discípulo y compañero de Claude Olievenstein, fundador del Centre Médical Marmottan en París, donde por primera vez se reconoció a los usuarios de heroína como “ciudadanos” y sujetos de derecho. Olievenstein lo ayudaría luego a fundar clínicas especializadas para tratar usuarios de cocaína por vía intravenosa y paco. Nery Filho es, entre otras tantas cosas, fundador del Centro para la Investigación y Terapia del Abuso de Drogas (Cetad) y asesor del Ministerio de Salud brasileño. También dirige el curso de Etica Médica de la Universidad Federal de Bahía, donde critica muy seguido a la corporación psiquiátrica de su país.

Sai Pedro, fica Paulina

Recebi através lista de e-mails as preocupações que transcrevo abaixo, com relação à saída de Pedro Abramovay e a nomeação de Paulina Duarte para a Secretaria Geral da SENAD:

“Desculpe-me se a noticia eh velha mas achei que valia avisar para alguns.

Q perda.

Alguem sabe das consequencias, eh soh jogo de cena? A substituta ta a altura?

Tem enquete no o globo e o retrocesso esta ganhando”

 

“Depois da boa entrevista do FH, isto eh andar para tras. Tomara que para cada passo para tras tenha dois para frente…

Abs

João”

 

Respondi:

Caro João Menezes,

Como você pergunta se a substituta está à altura de  Pedro Abramovay, respondo que sim. Se por um lado Pedro é o que poderíamos ter de mais avançado, Paulina Duarte deu à SENAD, enquanto Secretária Adjunta, representação nacional financiando pesquisas e projetos sérios e – muitas vezes – considerados avançados. Defensora das práticas redutoras de riscos e danos, orienta-se pelo e para o cuidado com os usuários de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas. Trabalhou na construção da proposta “Ações Integradas” que implica diversos campos do conhecimento, economizando esforços, recursos e, sobretudo, distanciando-se da malfadada e incapaz política repressora centrada nas substâncias. Posso dizer que a Dra. Paulina Duarte está muito mais preocupada com os consumidores do que com os produtos consumidos. Entretanto, todos temos limites – que podem ser ultrapassados como agora observamos nas declarações e escritos sobre drogas do Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso – e Dra. Paulina Duarte não parece concordar com a legalização pura e simples das atuais substâncias ilícitas nem com penas alternativas para pessoas utilizadas pelo grande tráfico, em geral mais vítimas do que algozes. A Argentina, nossos caríssimos vizinhos, compreenderam isto e não estão mais mandando para as cadeias (verdadeiras escolas do crime), los pequienos miserables que chamamos no Brasil, muito pejorativamente, de mulas, animais estéreis, feminino de burros. Creio que ela aceita a descriminalização do consumo de substâncias psicoativas ilícitas e não se opõe à despenalização do consumidor, o que não é pouco no Brasil. Aliás, coube a ela os esforços atuais para revisão da Lei de Tóxicos, promulgada em 2006; lembrar que foram necessários trinta anos para mudar a Lei anterior (6.368/1976). Não vai ser fácil para ela navegar nas águas do Ministério da Justiça (pessoalmente teria preferido Ministério da Saúde  ou Ministério da Cultura). Não teremos Pedro mas teremos Paulina que, certamente, “combaterá um bom combate”.

Codialmente,

Prof. Antonio Nery Filho

QUEM TEM MEDO DA LEGALIZAÇÃO?

Recentemente, fui entrevistado por duas jovens estudantes do ensino médio de um bom colégio de Salvador. Elas achavam difícil conseguir espaço em minha agenda e por isso recorreram a Patrícia Flach, minha ex-aluna na Faculdade Ruy Barbosa e agora colaboradora das mais atuantes e competentes no CETAD/UFBA. Patrícia é a mãe de uma das duas interessadíssimas estudantes. Entrevista marcada, recebi-as cordialmente tentando reduzir ao máximo a distância que vai de um homem que começa a envelhecer (tenho 66 anos) e duas mocinhas de 16 anos. Celulares postos sobre a mesa, seguiram uma lista de muitas perguntas cuidadosamente elaboradas, como pude constatar. Estavam muito sérias, quase cerimoniosas, dirigindo-se a mim por senhor. Respondi a todas as perguntas sem qualquer pressa; não escolhi palavras fáceis, nem frases “para jovens”. Respondi o que tinha de responder, dentro de minha experiência e do conhecimento que disponho. Não apresentei verdades concluídas, mas minha visão sobre adolescência, violência, tratamento e aspectos legais relacionados com as substâncias psicoativas. No final, feitos os agradecimentos de um lado e outro, pediram para me fotografar. Isto sempre me espanta, mas tento encarar numa boa.

Alguns dias depois da entrevista, Patrícia me informou que “as meninas” estavam irritadas em razão de corte, promovido por professora, a tudo que se referia a minha posição favorável à legalização da produção e comércio das substâncias psicoativas ilícitas. Patrícia estava muito zangada, diga-se de passagem, decidida a escrever uma carta “enquanto mãe”, endereçada à escola.

Deste modo, recebi de Patrícia o e-mail que transcrevo abaixo junto aos comentários que fiz em resposta. Compartilho com todos, esta pequena troca de correspondências, rica em significados e de possibilidades para dialogar, porque importante é poder conversar, discutir, ouvir e ser ouvido. Muitas são as verdades, como muitos são os caminhos.

Eis os textos:

Sou Patrícia, mãe de Paula von Flach. Venho acompanhando otrabalho desenvolvido por Paula e suas colegas com o tema “Meninos do Brasil”, considerando muito pertinente a proposta no sentido do desenvolvimento de uma postura mais crítica e baseada em informações não midiáticas. Nesse sentido, não posso deixar de manifestar minha decepção e, de certa forma, indignação com a forma como a entrevista do Dr. Nery vem sendo desrespeitosamente cortada. Sei que é um tema polêmico, assim como o aborto, eutanásia, extermínio de menores e tantos outros, mas  considero que exatamente por isso é necessário abrir espaços de discussão, com acesso a informações técnicas, que permita  aos alunos se posicionarem criticamente. Poderia citar uma série de revistas e jornais sérios, a exemplo do jornal francês Le Monde, Folha de São Paulo, dentre outros, além de pessoas públicas como três ex-presidentes – dentre eles Fernando Henrique Cardoso -, que discutem o tema da legalização das drogas. O profissional entrevistado, Dr. Antonio Nery Filho, é uma pessoa com notório saber sobre a temática, reconhecido internacionalmente, professor de ética da FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA – UFBA e de Bioética na FACULDADE RUY BARBOSA, ex-conselheiro do CREMEB, criador e coordenador do CETAD, Centro reconhecido internacionalmente e que atualmente tem suas práticas reconhecidas pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas que, inclusive, financiam a implementação dessas estratégias em todo o Brasil, com a coordenação desse Centro. O Estado da Bahia e o Município de Salvador também têm uma parceria com o CETAD, que propõe e implementa suas atuais políticas sobre drogas. Poderia preencher toda essa e várias outras  folhas com informações que ratificam a competência desse profissional sobre o tema sobre o qual foi entrevistado, mas é absolutamente desnecessário… podem acessar seu currículo Lattes.  Tudo isso para dizer que a censura das suas palavras é um desrespeito a ele e aos alunos dessa escola que não são cegos e surdos a uma questão que é tema principal da agenda dos atuais candidatos à presidência e que têm o direito de discutir o tema, concordar ou discordar.
Importante salientar que a defesa da legalização das drogas não é de forma alguma uma apologia ao seu uso, pelo contrário, é uma proposta de regulação pelo Estado de uma
questão  que hoje é regulada por traficantes.

Atenciosamente,
Patricia von Flach

 

____________________________________________________________________________________________

Patrícia,

Obrigado por suas considerações. Quando recebo jovens estudantes, peso muito o que digo e sou responsável pelo que digo. Assumo riscos, mas não transijo nem considero nossos filhos incapazes de identificar o certo e o errado quando lhes damos as informações necessárias. Aliás, este é um problema: nossos filhos e filhas vivem sem um norte claro, sem a possibilidade de reconhecer a verdade, porque, sobre muitas questões, quase sempre só lhes é dado conhecer a mentira. Sei que a legalização das drogas ilícitas é um tema que incomoda à sociedade brasileira, acostumada aos enganos e superficialidades constantemente apresentados pela grande mídia, atualmente voltada para um gozo incessante e oportunista em torno do crack. Não há como negar a relação entre tráfico e violência num comércio sem fronteiras nem limites. Creio que só a intervenção do Estado colocará um basta neste monstruoso ganho que devora vidas. Se o tráfico (ilegalidade) desaparecer, nos restarão as questões de saúde e as dificuldades próprias aos humanos. Certamente o consumo não desaparecerá, talvez nem diminua; num cenário pessimista, o consumo pode até aumentar; mesmo assim teremos um problema com o qual sabemos e podemos lidar. Retirar a possibilidade de nossos jovens poderem discutir estes aspectos, francamente, é uma droga!
Grande abraço,
Nery